Cérebro, psiquiatria e neurologia

Por Pedro Antonio Schmidt do Prado Lima e André Palmini

O Sr. CAJ tem 79 anos e um diagnóstico de doença de Parkinson há 15 anos. Ao longo do tempo, desenvolveu os sinais clássicos da doença, evoluindo com rigidez muscular, lentidão dos movimentos, tremor de repouso e instabilidade postural. Entretanto, mais recentemente, as mesmas doses dos medicamentos antiparkinsonianos, especialmente da levodopa e do pramipexole (um agonista dopaminérgico) que permitem uma melhora da mobilidade e do tremor, passaram também a causar alucinações e confusão mental. Nas últimas semanas, o paciente passou a ter alucinações de que policiais armados estavam em sua casa e tornou-se muito agitado, falando que todos na casa seriam presos. Estas manifestações comportamentais passaram a ser o principal problema para o paciente e seus cuidadores. Como a redução das doses dos medicamentos dopaminérgicos levou a uma piora muito importante da movimentação, o recurso utilizado foi, então, a prescrição de clozapina, um neuroléptico atípico. Este fármaco antipsicótico controlou os sintomas de alucinação e agitação psicomotora, sem piorar o quadro motor.

Essa breve vinheta clínica exemplifica uma ocorrência comum em pacientes com doença de Parkinson em estado avançado. Além disso, ilustra com clareza singular o moderno entendimento do cérebro como o “palco” ou o substrato onde expressa-se a mente humana. Modificações cerebrais levam a fenômenos mentais: no caso, alterações na neurotransmissão dopaminérgica, características de uma doença eminentemente neurológica, associam-se também a sintomas psicóticos, classicamente vistos como objeto das doenças psiquiátricas. Um mesmo substrato cerebral molecular – receptores dopaminérgicos – pode, conforme a região envolvida e seu estado de ativação, levar a sinais tão diversos como lentidão de movimentos e sintomas psicóticos.

Com a mesma riqueza, pode-se observar essa associação sob um ponto de partida mental, como é o caso da depressão em pessoas que foram abusadas ou sofreram privações na infância. Um diagnóstico psiquiátrico claro que se associa, sabe-se hoje, a alterações anatômicas no sistema límbico, em especial redução de volume hipocampal. E assim sucedem-se exemplos, com um refinamento cada vez maior do entendimento anátomo-funcional sobre a organização cerebral das emoções e do comportamento humano. Conhecemos cada vez mais os circuitos cerebrais envolvidos nos processos de tomada de decisão, na formação de vínculos, na adição a substâncias de abuso e no controle de emoções básicas como medo e raiva.

A descrição e categorização das “doenças da mente” têm sido tradicionalmente o território da psiquiatria. Entretanto, já vai longe o tempo no qual o advento dos psicofármacos constituía-se no único conjunto formal de evidências de que estava no cérebro a chave da compreensão do funcionamento mental e, por conseguinte, das doenças mentais. Significativos avanços nas diversas esferas do conhecimento englobadas pelo universo das neurociências, em especial a neurogenética e a neuroimagem, têm desvendado, passo a passo, os circuitos envolvidos na expressão das emoções e no controle do comportamento. Se a psicofarmacologia aproximou a psiquiatria do cérebro nas décadas passadas, os enormes avanços na genética e na neuroimagem que vivenciamos hoje tornaram o conhecimento neurobiológico um imperativo para uma boa prática psiquiátrica. Da mesma forma, cada vez menos compreende-se um neurologista que não valorize o entendimento de modificações comportamentais relacionadas a disfunções em circuitos neuroanatômicos que sempre foram e sempre serão a base da prática neurológica.

Para os psiquiatras, a aproximação com a neurobiologia não foi uma conquista simples: sair do conforto de uma especialidade médica ‘sem órgão’ e encampar a tarefa de estudar e compreender os mais complexos fenômenos biológicos que ocorrem em nosso corpo tem exigido um grande esforço e alguns traumas. Em anos recentes, os psiquiatras passaram a ser experts em psicofarmacologia, neuroquímica, biologia molecular e, ultimamente, em neurofisiologia, neuroanatomia e genética.

Toda esta revolução promoveu também a aproximação da psiquiatria com a neurologia e vice-versa. Afinal de contas, ambas especialidades estudam o cérebro. Além disto, muitas vezes estudam os mesmos circuitos, cuja disfunção pode ter como tradução uma “doença neurológica” ou  um “transtorno psiquiátrico”. Esses fatos poderiam gerar competição entre as especialidades e sentimentos corporativos nos profissionais ou ao contrário, serem uma fonte rica de cooperação e de aprendizado mútuo. O Congresso Brasileiro de Cérebro Comportamento e Emoções, que ocorrerá na sua 5ª edição entre 11 e 13 de junho, em Gramado-RS, nasceu e se manteve fiel a este espírito de cooperação. Foi criado pelo desejo de neurologistas e psiquiatras conviverem e aprenderem mutuamente. Além disso, desde o primeiro momento, incorporou também o desejo de ambos de dialogarem e aprenderem com os neurocientistas e com os neuropsicólogos. Fiel a este espírito, foi evitada qualquer alusão à psiquiatria ou à neurologia no nome do congresso, para estabelecer-se como um território em que pessoas interessadas na interface entre cérebro, comportamento e emoções possam dialogar e aprender uns com os outros.
   
A formação do neurologista e do psiquiatra é bastante distinta. Estudam doenças diferentes e examinam os pacientes de forma  diferente. O terreno da neurologia é essencialmente objetivo, o da psiquiatria nem tanto. Psiquiatras e neurologistas são longamente treinados em diagnóstico, mas aprendem a procurar doenças diferentes e utilizam técnicas clínicas diferentes, desta forma se estabelecendo a dificuldade de um exercer o papel do outro. Esta é a essência da existência das duas especialidades, o motivo pelo qual uma não absorve a outra.  A temática do evento tem sido um exercício constante da busca tanto dos pontos em comum quanto das ricas diferenças entre essas duas especialidades médicas. E, como não poderia deixar de ser, incorpora os preciosos elementos aportados pela ciência básica e pela psicologia na multifacetada discussão das relações entre razão, emoção, mente e cérebro.

Pedro Antonio Schmidt do Prado Lima é psiquiatra e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). André Luis Fernandes Palmini é neurologista, diretor científico do Programa de Cirurgia da Epilepsia do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e Professor Adjunto de Medicina Interna da PUCRS. Ambos são da Comissão Organizadora do Congresso Cérebro, Comportamento Emoções, que ocorreu em Gramado, entre os dias 11 e 13 de junho.

©Sebastian Kaulitzki/Shutterstock

 ACOMPANHADO É MELHOR

 

Partilhar as próprias conquistas com um parceiro é mais prazeroso

 

Emoções compartilhadas – e por isso denominadas sociais – relacionadas à inveja e à alegria de obter sucesso em algum empreendimento costumam ser vividas com mais intensidade que sentimentos como alívio e arrependimento, em geral experimentados de forma solitária. Uma equipe coordenada pelo pesquisador Aldo Rustichini, da Universidade do Minnesota, Estados Unidos, usou a capacidade da pele de captar estímulos e conduzi-los ao cérebro para medir a excitação emocional de voluntários enquanto eles participavam de um jogo de loteria em duas situações: quando apostavam sozinhos e quando o faziam com um parceiro. Os cientistas descobriram que as emoções de inveja e triunfo dos voluntários (quando comparavam suas vitórias com as do outro) eram muito mais fortes que as de alívio e arrependimento (quando jogavam sozinhos). As emoções sociais parecem induzir mais resposta do córtex orbitofrontal e do gânglio basal, regiões do cérebro envolvidas com o processamento de recompensa, de acordo com dados obtidos por meio de exames de ressonância magnética funcional. Também são essas áreas que se excitam quando contamos nossas conquistas a pessoas afetivamente importantes para nós. Os testes de neuroimagem também indicam que partilhar vitórias com quem amamos pode ser tão prazeroso quanto viver o momento da conquista.

O prazer de vencer ficou acima de todas as emoções, no que diz respeito à intensidade, segundo Rustichini, que realizou o estudo com os neurocientistas Nadège Bault e Giorgio Coricelli, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França. A raiz de nosso prazer em nos destacar de forma positiva pode ser evolucionária. Entre animais, uma posição mais alta ajuda na competição por comida e parceiros; entre seres humanos o sucesso (embora nem sempre merecido) pode significar mais dinheiro e reconhecimento dos pares.

CURSO

Educação para a morte

 

Estão abertas as inscrições para a Disciplina “Tanatologia – Educação para a Morte” (MCM 5892), que será ministrada em agosto, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), dentro da Pós-Graduação strictu sensu. Serão 30 vagas para doutorandos e mestrandos, regularmente matriculados em qualquer curso da universidade, e mais cinco vagas para alunos de outras faculdades, que participação como ouvintes.

“Pela primeira vez, uma faculdade brasileira de medicina oferece uma disciplina para formação de professores e pesquisadores com o objetivo de discutir as questões da morte e do morrer de maneira plural e interdisciplinar, por meio de abordagens filosóficas, científicas, pedagógicas e estéticas”, ressalta Franklin Santana Santos, um dos coordenadores do curso. A disciplina é constituída de oito créditos e terá início no dia 8 de agosto. Além de reunir alunos de Medicina e das áreas biológica e ciências da vida, o objetivo da Disciplina é atrair mestrandos e doutorandos de outras áreas do conhecimento como teologia, sociologia, antropologia, filosofia, pedagogia, serviço social, entre outras. Mais informações no site www.fm.usp.br, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

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